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domingo, 20 de novembro de 2011

GERAÇÃO À RASCA - NOSSA CULPA!

            Um dia, isto tinha de acontecer.
            Existe uma geração à rasca?
            Existe mais do que uma! Certamente!
           Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.
           Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.

           A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.

            Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

            Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.

            Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.

           Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

           Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego,... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.

           Foi então que os pais ficaram à rasca.

          Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.

          Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.

           São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos “qualquercoisaphones” ou “pads”, sempre de última geração.

           São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!

           A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.

           Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.

           Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.

           Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.

           Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.

           Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.

           Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.

           Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.

           Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

           Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?

           Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!

           Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).

           Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.

            E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!

             Novos e velhos, todos estamos à rasca.

             Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.

             Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.

             A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.

              Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço?

              Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de uma generalização injusta.
            Pode ser que nada/ninguém seja assim.

OS PROFESSORES!

O mundo não nasceu connosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os sentidos. Chegámos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente; depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objectos até que, por fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu. Lançaram-se na tarefa de nos actualizar com o presente da nossa espécie e da nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita. O material que é trabalhado pelos professores não pode ser quantificado. Não há números ou casas decimais com suficiente precisão para medi-lo. A falta de quantificação não é culpa dos assuntos inquantificáveis, é culpa do nosso desejo de quantificar tudo. Os professores não vendem o material que trabalham, oferecem-no. Nós, com o tempo, com os anos, com a distância entre nós e nós, somos levados a acreditar que aquilo que os professores nos deram nos pertenceu desde sempre. Mais do que acharmos que esse  material é nosso, achamos que nós próprios somos esse material. Por ironia ou capricho, é nesse momento que o trabalho dos professores se efectiva. O trabalho dos professores é a generosidade. Basta um esforço mínimo da memória, basta um plim pequenino de gratidão para nos apercebermos do quanto devemos aos professores. Devemos-lhes muito daquilo que somos, devemos-lhes muito de tudo. Há algo de definitivo e eterno nessa missão, nesse verbo que é transmitido de geração em geração, ensinado. Com as suas pastas de professores, os seus blazers, os seus Ford Fiesta com cadeirinha para os filhos no banco de trás, os professores de hoje são iguais de ontem. O acto que praticam é igual ao que foi exercido por outros professores, com outros penteados, que existiram há séculos ou há décadas. O conhecimento que enche as páginas dos manuais aumentou e mudou, mas a essência daquilo que os professores fazem mantém-se. Essência, essa palavra que os professores recordam ciclicamente, essa mesma palavra que tendemos a esquecer. Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios, contra o nosso futuro. Resistindo, os professores, pela sua prática, são os guardiões da esperança. Vemo-los a dar forma e sentido à esperança de crianças e de jovens, aceitamos essa evidência, mas falhamos perceber que são também eles que mantêm viva a esperança de que todos necessitamos para existir, para respirar, para estarmos vivos. Ai da sociedade que perdeu a esperança. Quem não tem esperança não está vivo. Mesmo que ainda respire, já morreu. Envergonhem-se aqueles que dizem ter perdido a esperança. Envergonhem-se aqueles que dizem que não vale a pena lutar. Quando as dificuldades são maiores é quando o esforço para ultrapassá-las deve ser mais intenso. Sabemos que estamos aqui, o sangue atravessa-nos o corpo. Nascemos num dia em que quase nos pareceu ter nascido o mundo inteiro. Temos a graça de uma voz, podemos usá-la para exprimir todo o entendimento do que significa estar aqui, nesta posição. Em anos de aulas teóricas, aulas práticas, no laboratório, no ginásio, em visitas de estudo, sumários escritos no quadro no início da aula, os professores ensinaram-nos que existe vida para lá das certezas rígidas, opacas, que nos queiram apresentar. Se desligarmos a televisão por um instante, chegaremos facilmente à conclusão que, como nas aulas de matemática ou de filosofia, não há problemas que disponham de uma única solução. Da mesma maneira, não há fatalidades que não possam ser questionadas. É ao fazê-lo que se pensa e se encontra soluções. Recusar a educação é recusar o desenvolvimento. Se nos conseguirem convencer a desistir de deixar um mundo melhor do que aquele que encontrámos, o erro não será tanto daqueles que forem capazes de nos roubar uma aspiração tão fundamental, o erro primeiro será nosso por termos deixado que nos roubem a capacidade de sonhar, a ambição, metade da humanidade que recebemos dos nossos pais e dos nossos avós. Mas espero que não, acredito que não, não esquecemos a lição que aprendemos e que continuamos a aprender todos os dias com os professores. Tenho esperança.

Artigo de José Luís Peixoto, publicado na revista Visão de 13 de Outubro de 2011

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

CONTRA A "ESCOLA ARMAZÉM".

"Merece toda a atenção a proposta de escola a tempo inteiro (das 7h30 às 19h30?), formulada pela Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap). Percebe-se o ponto de vista dos proponentes: como ambos os progenitores trabalham o dia inteiro, será melhor deixar as crianças na escola do que sozinhas em casa ou sem controlo na rua, porque a escola ainda é um território com relativa segurança. Compreende-se também a dificuldade de muitos pais em assegurarem um transporte dos filhos a horas convenientes, sobretudo nas zonas urbanas: com o trânsito caótico e o patrão a pressionar para que não saiam cedo, será melhor trabalhar um pouco mais e ir buscar os filhos mais tarde.
Ao contrário do que parecia em declarações minhas mal transcritas no PÚBLICO de 7 de Fevereiro, eu não creio à partida que será muito mau para os alunos ficar tanto tempo na escola. Quando citei o filme Paranoid Park, de Gus Von Sant, pretendia apenas chamar a atenção para tantas crianças que, na escola e em casa, não conseguem consolidar laços afectivos profundos com adultos, por falta de disponibilidade destes. É que não consigo conceber um desenvolvimento da personalidade sem um conjunto de identificações com figuras de referência, nos diversos territórios onde os mais novos se movem.
O meu argumento é outro: não estaremos a remediar à pressa um mal-estar civilizacional, pedindo aos professores (mais uma vez...) que substituam a família? Se os pais têm maus horários, não deveriam reivindicar melhores condições de trabalho, que passassem, por exemplo, pelo encurtamento da hora do almoço, de modo a poderem chegar mais cedo, a tempo de estar com os filhos? Não deveria ser esse um projecto de luta das associações de pais?
Importa também reflectir sobre as funções da escola. Temos na cabeça um modelo escolar muito virado para a transmissão concreta de conhecimentos, mas a escola actual é uma segunda casa e os professores, na sua grande maioria, não fazem só a instrução dos alunos, são agentes decisivos para o seu bem-estar; perante a indisponibilidade de muitos pais e face a famílias sem coesão onde não é rara a doença mental, são os promotores (tantas vezes únicos!) das regras de relacionamento interpessoal e dos valores éticos fundamentais para a sobrevivência dos mais novos. Perante o caos ou o vazio de muitas casas, os docentes, tantas vezes sem condições e submersos pela burocracia ministerial, acabam por conseguir guiar os estudantes na compreensão do mundo. A escola já não é, portanto, apenas um local onde se dá instrução, é um território crucial para a socialização e educação (no sentido amplo) dos nossos jovens. Daqui decorre que, como já se pediu muito à escola e aos professores, não se pode pedir mais: é tempo de reflectirmos sobre o que de facto lá se passa, em vez de ampliarmos as funções dos estabelecimentos de ensino, numa direcção desconhecida. Por isso entendo que a proposta de alargar o tempo passado na escola não está no caminho certo, porque arriscamos transformá-la num armazém de crianças, com os pais a pensar cada vez mais na sua vida profissional.
A nível da família, constato muitas vezes uma diminuição do prazer dos adultos no convívio com as crianças: vejo pais exaustos, desejosos de que os filhos se deitem depressa, ou pelo menos com esperança de que as diversas amas electrónicas os mantenham em sossego durante muito tempo. Também aqui se impõe uma reflexão sobre o significado actual da vida em família: para mim, ensinado pela Psicologia e Psiquiatria de que é fundamental a vinculação de uma criança a um adulto seguro e disponível, não faz sentido aceitar que esse desígnio possa alguma vez ser bem substituído por uma instituição como a escola, por melhor que ela seja. Gostaria, pois, que os pais se unissem para reivindicar mais tempo junto dos filhos depois do seu nascimento, que fizessem pressão nas autarquias para a organização de uma rede eficiente de transportes escolares, ou que sensibilizassem o mundo empresarial para horários com a necessária rentabilidade, mas mais compatíveis com a educação dos filhos e com a vida em família.
Aos professores, depois de um ano de grande desgaste emocional, conviria que não aceitassem mais esta "proletarização" do seu desempenho: é que passar filmes para os meninos depois de tantas aulas dadas - como foi sugerido pelos autores da proposta que agora comento - não parece muito gratificante e contribuirá, mais uma vez, para a sua sobrecarga e para a desresponsabilização dos pais".

Daniel Sampaio.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

E TU, IDIOTA: ÉS PELOS IDIOTAS?

"Os professores ganham misérias de salários. Escandalosas, desgraçadas, pornográficas misérias de salários. Um professor, para o trabalho que faz, para a importância que tem, é o mais miserável dos
profissionais(...). O professor tem de formar génios quando se sente o mais imbecil dos imbecis por ser aquilo que é - por ganhar aquilo que ganha. O professor é um palerma se insistir em ser professor com o excremento de ordenado que recebe. E tudo porque os palermas que decidem quanto ele ganha foram palermas que não tiveram professores como deve ser – porque também esses professores que ensinaram os palermas que decidem quanto ganha um professor eram palermas que eram professores e que eram explorados até ao tutano e nunca reagiram a preceito. Palermas.
Os professores deveriam ganhar tanto como os médicos. Exacto. Leste bem: os professores deveriam ganhar tanto como os médicos. Digo mais uma vez – agora por outras palavras – para não restarem dúvidas: os salários dos professores deveriam ser equiparados aos dos médicos. E não: não sou eu quem precisa de ir ao médico por dizer o que acabei de dizer; és tu, se não o entendeste, que precisas de ter um professor que te explique, mais calmamente, aquilo que vou começar, no parágrafo seguinte, a declarar. Lê com atenção, por favor.
Um professor, quando é bom, salva mais vidas que o mais bem-sucedido dos médicos. Mais: um professor, quando é bom, cura mais doenças do que o mais bem-sucedido dos médicos. Desde logo, a doença que está a matar a sociedade: a incompetência. A falta de talento, a inexistência de visão, a incapacidade de solução. E só há uma forma de um professor ser verdadeiramente bom: gostar do que faz. Gostar verdadeiramente do que faz. E um professor só gosta verdadeiramente do que faz quando
está motivado: verdadeiramente motivado. E, por mais que goste do que faz, um professor - porque é humano e tem família e tem de colocar comida na mesa e tem de se divertir e viver a vida - precisa de se sentir devidamente premiado pelo papel decisivo que tem. Porque o professor é, mais do que o figurante que querem fazer dele, o actor principal de uma sociedade moderna. É por aqui, e por mais lado nenhum, que deve começar a reforma da sociedade, o crescimento de um país: dar aos professores o que eles merecem. E o que é que merece o actor principal de um filme: o cachet mais alto do elenco. Nem mais, nem menos: o cachet mais alto do elenco. E o que é que acontece na realidade? O professor, que tem uma das mais altas responsabilidades, tem um dos mais baixos salários. E depois ainda lhe é exigido que sorria, que esteja feliz, que acorde cheio de energia e o diabo a quatro. Pró falo com eles.
Exigir exige exigência máxima. Mas exigência máxima exige motivação máxima. Eu sou pela exigência: máxima, absoluta - demencial até. Sou pela avaliação até à loucura dos professores. Sou por critérios quase pidescos na admissão dos professores. Sou pela subida das médias de entrada na universidade nos cursos que formam professores para médias tão, ou mais, altas como as médias de entrada em cursos de medicina.
Para que só os melhores lá cheguem. Para que só os mais dotados lá cheguem. Para que só os que têm a vocação lá cheguem. Para que só os mais capazes tenham nas suas mãos as vidas de tanta gente. Um
cirurgião salva, com um transplante de coração, um paciente da morte; mas um professor salva, se tiver talento e coração, centenas de impacientes de uma vida de morte. Estava, confesso, a morrer de
vontade de te contar isto. E ainda te conto mais. Isto: Conto-te que se os professores ganhassem tanto como os médicos e tivessem um grau de exigência académico tão alto como o dos médicos, iriam ser aquilo que têm de ser – aquilo que qualquer país ou sociedade decente exigem que eles sejam: uma trave-mestra daquilo que nos sustenta. Sim: nos. Nós. A mim, a ti, ao teu filho, ao meu, ao teu primo e ao meu – a toda a gente. Os professores deviam ter um estatuto, em tudo, igual ao dos médicos. Os professores são médicos de prevenção – os pré-médicos de uma sociedade de verdade. De uma sociedade que pré-age em vez de reagir. Eu sou pelos professores. E sou pela eliminação dos milhares de não-professores que andam a fazer de professores pelo país fora. Sim: porque o sistema, ao reduzir a exigência, abre as portas ao mais ou menos, ao medíocre. E o medíocre ensina a mediocrizar. E se esta porcaria continua assim estamos numa sociedade de medíocres a ensinar e de medíocres a serem ensinados. Eu sou pela verdadeira chacina de milhares de professores. Façam-lhes testes, façam-lhes avaliações, obriguem-nos a mostrar o que valem.
Depois, sim, no final, quando a separação das águas estiver feita, é tempo de dizer aos briosos resistentes: “meus amigos, vocês são o orgulho da nossa nação; vocês são, nada mais do que isso, o futuro desta merda toda. Peguem lá 3000 ou 4000 ou 5000 euros por mês e façam deste país um oásis de educação, um arquétipo de conhecimento, um padrão de evolução intelectual e cultural e técnica e científica e criativa”. Podes pensar que é dinheiro a mais, podes pensar que não é tempo de fazer loucuras destas. Mas isso é apenas porque não tiveste professores em condições – e tiveste professores que ganhavam 800 ou menos euros por mês e tinham horários incompletos e só queriam despachar a aula o mais rapidamente possível para irem para um centro qualquer dar explicações para poderem pagar a renda de uma casa de trampa que tiveram de arrendar por estarem a centenas de quilómetros da sua terra-natal. Esses professores, os que têm tanta motivação para serem professores como tu tens para pagar o IVA, ensinaram-te a ser os infelizes que eles foram: que eles vão continuar a ser se o paradigma construído pelos idiotas que mandam nisto tudo não mudar. É tempo de escolher: ou ensinar os idiotas a não formarem mais idiotas - ou ser de(s)formado pelos idiotas que querem entronizar os idiotas. Ainda hesitaste? Idiota".
Texto de Pedro Chagas Freitas

quinta-feira, 31 de março de 2011

Super-herói!


Acordei sobressaltado ao ouvir um ruído que vinha da janela do meu quarto. Fiquei assustado! Seria uma tempestade? Seria um assalto? Precipitei-me para a janela e espreitei, receoso. Avistei um vulto, um homem a levitar. Empurrou a janela e esta abriu-se. Era o Action-man. Exclamei:

- Estou a sonhar, pois o Action-man não existe.

Ao que ele me respondeu:

- Não te assustes. Vem comigo, vamos ver o mundo.

Ver este mundo que dizem estar de tanga? Ainda por cima com o Action-man? Devo estar mesmo a sonhar, pensei eu. Nisto, ele agarra-me pelo braço e saímos a voar. Aproximámo-nos do mar e vi uma espécie de lagarto enorme, que me apeteceu chamar-lhe “Lagartossauro”. De seguida, ao passarmos por um lago pareceu-me ver o monstro do lago Ness. Enfim, era uma sequência de imagens que me estavam a deixar completamente baralhado. Vi polvos cor de laranja, macacos ou gorilas que me faziam lembrar alguns lideres e ex-lideres do nosso Portugal. Mas, apesar de parecer uma república das bananas, e de uma aparente bandalheira (como diz o outro!), paradoxalmente sentia-se uma certa harmonia e respeito uns pelos outros. Começava a gostar deste mundo e a acreditar que afinal podia existir um mundo de grandes diferenças, mas também de grande harmonia e respeito; e mais, começava a acreditar que até o Action-man existia mesmo. Mas, de repente acordei! Estava na minha cama. Tinha sido de facto um sonho. Que tristeza senti nesse momento. Afinal o Action-man e esse mundo quase perfeito não existia mesmo. Naquele momento, desejei transformar-me em Action-man (ou talvez em Super-homem), para poder ir à Assembleia da República, de preferência num dia de aprovação de mais algum PEC, pegar naquela malta toda, fazê-los num molho e chutá-los para outro Planeta. E, com esta ideia, levantei-me, pelo menos, mais aliviado!


(Colectânea de textos originais de minha autoria)

Com um pedaço!


Com um pedaço de qualquer coisa, por mais simples que seja, podemos mudar a nossa vida e a dos outros. Regularmente, em resposta a vários apelos que nos vão chegando, seguimos caminho rumo a sul, em direcção aos subúrbios de uma grande metrópole. Como é hábito, levamos a nossa viatura carregada de pedaços de muitas coisas, sobretudo roupas e bens alimentares essências como leite, arroz, massas, bolachas… Quando entramos nesses bairros, onde há pessoas que vivem amontoadas e em condições desumanas, chamamos logo a atenção dos que estão, causando-nos, muitas vezes, uma sensação de grande receio e até medo. Mas, quando nos encontramos olhos nos olhos com essas pessoas, que nos franqueiam as portas e nos recebem de coração aberto, o medo desaparece e sentimo-nos, naquele momento, muito pequeninos e um pedaço deles também. Ao partilharmos uns pedaços da nossa “mercadoria” e vermos aqueles olhos embargados em lágrimas dizerem-nos: “- Muito obrigado! Nem sabem o quanto isto nos ajuda!”, percebemos o quanto um pedaço pode ser tão importante para alguém. Mas, percebo também que muito mais que um pedaço de algo material, deixamos também um pedaço de esperança, de conforto e de amizade, que, muitas vezes, mais tarde, com alegria verificamos que ajudou a mudar algumas vidas para melhor. Raramente levamos a solução, mas pelo menos levamos um pedaço de esperança e sobretudo de atenção a esta gente. Por vezes era apenas isso que lhes faltava; sentirem que são pessoas, que alguém pensa nelas e se preocupa com elas… Nem que seja só um Pedaço!


(Colectânea de originais de minha autoria)

Infância






Nas minhas memórias,

Ocorrem lembranças da meninice,

Um sem fim de histórias,

E de muita traquinice.


Do vale à montanha,

Numa aldeia atrás de um monte,

Emerge-me uma saudade tamanha,

Das brincadeiras junto à fonte.


Dias inteiros a pescar,

Umas vezes sozinho, outras acompanhado,

Prados e penhascos para ultrapassar,

E sempre feliz, apesar de cansado.


E hoje, recordo entre sorrisos,

Uma infância no tempo perdida,

Do vale da montanha, dos rios…

Uma lembrança nunca esquecida!


(Colectânea de originais de minha autoria)


Desejo!


África, Angola, terra onde nasci. Hoje, ainda sinto sabores, cheiros, imagens que passam como relâmpagos na minha memória, que muitas vezes me fazem sentir um saboroso e feliz regresso às minhas origens e a uma pequena parte da minha infância. Passados mais de trinta anos ainda não realizei o sonho de um regresso, de uma partida e de uma chegada. No entanto, felizmente, no meu dia-a-dia, com os meus gaiatos, grande parte deles africanos (como eu!) e com os seus hábitos, pronúncia, andar ritmado, futebol pouco disciplinado, mas alegre e mágico, vou matando saudades. Assim, vou aguardando por esse regresso com mais resignação embora esperando que ele se realize, um dia, de uma forma efectiva e sobretudo muito afectiva.

(Colectânea de originais de minha autoria)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Desencontro - Fernado Pessoa.


1935, 30 de Novembro. Inquieto, a remexer-se na cama, Pessoa arde em febre.


"Não sou nada

Nunca serei nada

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Estou hoje vencido, como soubesse a verdade.

Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer."(7)


O capelão tenta acalmá-lo. Ele insiste em chamar Caeiro, Reis, Campos e Soares. Como que ouvindo o chamamento do seu criador, os poetas seguem para o hospital. Pessoa em agonia. Repuxa o lençol, contrai-se. Dá-me os óculos, os meus óculos, pede. Prepara-se para o último olhar sobre a sua criação. E eles que não chegam. Mas pressente, eles vêm, Ah se vêm.
Caeiro, Reis, Campos e Soares entram de rompante. Porém tarde, já morto o poeta. Sobram uns rabiscos num papel:

"Fiz de mim o que não soube,

E o que podia fazer de mim não o fiz.

O dominó que vesti era errado.

Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara,

Estava pegada à cara.

Quando a tirei e me vi ao espelho,

Já tinha envelhecido,

Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Como um cão tolerado pela gerência

Por ser inofensivo.

E vou escrever esta história para provar que sou sublime."(7)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Posso ter Defeitos Viver Ansioso.


Este poema devia ser lido todos os dias... e em voz alta, para o "ouvirmos" melhor!

"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,

mas não esqueço de que a minha vida é a maior empresa do mundo.

E que posso evitar que ela vá a falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e

se tornar um autor da própria história.

É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar

um oásis no recôndito da sua alma.

É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.

É saber falar de si mesmo.

É ter coragem para ouvir um 'não'.

É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?

Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."
(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

EU SEI... MAS NÃO DEVIA.



Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti
(Postado por sugestão do amigo Valdemar Lima)

domingo, 21 de novembro de 2010

A Morte. Partida ou Chegada?


Quando observamos, da praia, um veleiro a afastar-se da costa, navegando mar adentro, impelido pela brisa matinal, estamos diante de um espectáculo de beleza rara.
O barco, impulsionado pela força dos ventos, vai ganhando o mar azul e nos parece cada vez menor.
Não demora muito e só podemos contemplar um pequeno ponto branco na linha remota e indecisa, onde o mar e o céu se encontram.
Quem observa o veleiro desaparecer na linha do horizonte, certamente exclamará: - "já se foi". Terá sumido? Evaporado? Não, certamente. Apenas o perdemos de vista. O barco continua do mesmo tamanho e com a mesma capacidade que tinha quando estava próximo de nós. Continua tão capaz quanto antes de levar ao porto de destino as cargas recebidas. O veleiro não evaporou, apenas não o podemos ver.
Mas ele continua o mesmo. E talvez, no exacto instante em que alguém diz: - "já se foi", haverá outras vozes, mais além, a afirmar: - "lá vem o veleiro" !
Assim é a morte.
Tal como o veleiro, o ser que amamos, quando parte, continua o mesmo, as suas conquistas persistem dentro do mistério divino.
Nada se perde, a não ser o corpo físico de que já não necessita. E é assim que, no mesmo instante em que dizemos: - "já se foi", no além, outro alguém dirá : - "já está a chegar". Chegou ao destino levando consigo as aquisições feitas durante a vida.
Na vida, cada um leva sua carga de vícios e virtudes, de afectos e desafectos, até que se resolva por desfazer-se do que julgar desnecessário.
A vida é feita de partidas e chegadas.
De idas e vindas. Assim, o que para uns parece ser a partida, para outros é a chegada.
Um dia, todos nós partimos como seres imortais que somos todos nós ao encontro daquele que nos criou.

As coisas vão e voltam como as ondas do mar. Enquanto muitos partem, muitos chegam. A diferença está apenas no choro e na tristeza pela partida dos que vão e no sorriso e na alegria pelos que chegam. Sintamos o sabor da Verdade fluir nas nossas veias sabendo que estamos aqui apenas de passagem!...

Luto invisível.


De acordo com a nossa sociedade, existem regras de comportamento e até de sentimentos. Uma mãe que não expresse o seu sofrimento de uma forma clara, pode tornar-se vítima de comentários e assusta a sociedade com sua aparente “frieza”, e o mesmo, estranhamente, acontece quando um pai expressa toda sua emoção publicamente. Os tipos de perdas e relacionamento também influenciam a aceitação social da perda. Por exemplo, a relação entre um pai e um filho abortado não é tão reconhecida como a de um pai com um filho maior, portanto, esse tipo de luto não é validado. Na comunicação social, quando somos notificados da morte de algum jovem ou criança, quem aparece a fazer declarações e a resolver as situações burocráticas na maioria dos casos é o homem (pai). O que me parece que é desconhecido é que muitas vezes estes pais têm de conter o seu sofrimento com a intenção de poupar a mulher, o que muitas vezes é visto como uma postura de frieza em relação à perda. O que não é verdade. É que no meio de tantas obrigações e expectativas sociais, fica difícil para os homens demonstrarem o seu sofrimento pela sua perda. Lamento que o luto de um homem que perdeu o seu filho, não tenha direito a algum tipo de tratamento e acompanhamento psicológico. Muito se estuda sobre a dor das mulheres e mães que perderam filhos, mas pouco se encontra nas prateleiras de livros e teses sobre luto, questões referentes ao luto paterno e ao luto masculino. O Luto masculino acaba por ser marginalizado e pouco estudado, devido a regras sociais que impõe que os homens não devem demonstrar com lágrimas e emoções o seu pesar. Mas nem por isso os homens deixam de expressar de outras formas suas as emoções, e por isso, o luto masculino, deveria merecer mais atenção. Após a perda, e num primeiro momento, entramos em choque, não conseguimos acreditar na morte (perda) do filho, tomando uma postura de negação em relação ao ocorrido. Há uma tentativa de continuar a viver como se nada tivesse acontecido. É uma reacção de defesa contra o impacto da perda. Depois, vem uma fase de raiva, muita raiva. É uma fase de bastante inquietação, onde acontecem os sonhos diários com o filho perdido. Segue-se o desespero: fase bastante difícil, na qual, damos conta que, de facto, a perda é irrecuperável. É a fase de apatia e depressão. Posteriormente, a depressão mistura-se com sentimentos bons, vamo-nos adaptando às mudanças ocorridas na nossa vida, consegue-se reinvestir a energia noutras coisas e a nossa relação com a perda é estabelecida de uma forma diferente e mais pacífica.

Na minha opinião, a grande dificuldade que os homens têm para superar o luto, é o facto desse luto não ser reconhecido. Isto ocorre sobretudo quando a perda sofrida pela pessoa não é considerada significativa pela sociedade em que se vive. O grande exemplo é a perda de um filho abortado. O luto paterno, não é, de facto reconhecido. A sociedade espera que um homem seja forte e não demonstre publicamente seu sofrimento, assim, quando um homem sofre uma perda, muitas vezes, a sociedade e o grupo à sua volta reage como se o homem não sofresse, e passa a dedicar seu apoio à mulher, enquanto o homem se dedica a resolver aspectos burocráticos e concretos relativos à perda. De facto, o sofrimento masculino, raramente é reconhecido. E o problema é que um luto quando não reconhecido, pode tornar-se num luto complicado na medida em que o “enlutado” não pode ou não consegue expressar a sua perda como gostaria e/ou deveria. Acredito que o impacto da perda de um filho em qualquer idade ou circunstância pode permanecer por anos, e essa é certamente uma das perdas mais devastadoras que um ser humano pode sofrer. O luto de um pai, por aborto de um filho, dado não ser tão reconhecido, tem o problema de “adiar” o processo de luto. E porquê? Porque como ninguém oferece “ajuda”, o pai tem dificuldade de demonstrar as suas fraquezas publicamente e até, de pedir ajuda, pois isso (eventualmente) seria um sinal de fraqueza face às expectativas colocadas sobre ele. Ele passa a acreditar então, que as suas perdas não devem incomodar os outros, pois dizem respeito única e exclusivamente a si. Já as mulheres expressam facilmente os seus sentimentos, sendo-lhes disponibilizadas ajudas, quer pelo núcleo familiar e amigo, quer de acompanhamento psicológico, previsto na lei. Essa repressão dos sentimentos provoca nos homens diversas reacções fisiológicas, como insónia, mal-estar, stress, que acaba em fadiga. Após esta explanação, gostaria de deixar aqui algumas questões para reflexão. - Caso o luto de um pai fosse reconhecido pela sociedade, e o homem também fosse submetido a um acompanhamento psicológico a par com a sua esposa, alguns meses depois da perda de um filho, a dor seria ultrapassada mais rapidamente?


- Ou, pelo menos, o casal compreenderia melhor a forma de sofrimento um do outro? - Se um pai enlutado tivesse tido a oportunidade de expressar seu pesar, no momento certo, sofreria menos? Por fim, gostaria de alertar, para a importância da educação para a morte na nossa sociedade, para que as pessoas compreendam mais e aceitem todos os tipos de perdas e expressões de morte, evitando por vezes, que pessoas enfrentem lutos complicados e ainda mais dolorosos.


(Colectânea de textos originais de minha autoria)

sábado, 20 de novembro de 2010

Educação Multicultural.


«Se reflectirmos ponderadamente, será fácil apercebermo-nos que num país tão pequeno como o nosso, os habitantes das diversas regiões possuem costumes diferentes, pronunciam algumas palavras de forma diferente, acreditam em coisas diferentes... Se convivemos todos em harmonia há tantos anos, qual é a justificação para não aceitarmos outras pessoas, quando a base desse argumento é a diferença, que afinal tanto nos une?» Nogueira (2001)


Educação multicultural significa o conjunto de estratégias baseadas em programas curriculares que expressem a diversidade de culturas e estilos de vida, tendo em vista promover a mudança de percepções e atitudes que facilitem a compreensão e a tolerância entre indivíduos de origens étnicas diversas.
O professor encontrará sempre diversidade entre os alunos das suas classes seja qual for o contexto onde desenvolva a sua actividade. Essa diversidade pode expressar-se através de diferenças socioeconómicas, culturais, linguísticas, de cor de pele, de género e outras.
A diferença é, assim, um dos principais factores a ter em conta na acção da escola e dos professores.
Após a descolonização essa diversidade cultural tornou-se um fenómeno de importância crescente na sociedade.
A desigualdade tem sido a prática. Os professores em contextos escolares e etnicamente heterogéneos tendem a afirmar que tratam todos os seus alunos da mesma maneira e que para eles são todos iguais. No entanto estas frases não são compatíveis com práticas orientadas para responder às necessidades e interesses individuais definidos em função da raça, etnia ou classe social e assim promover a igualdade de oportunidades entre todos. Um aluno desfavorecido é em geral entendido através das suas desvantagens económicas, sociais... e raramente através de desvantagens ligadas à raça, à condição de imigrante, a situação de clandestinidade, às diferenças culturais, linguísticas etc.
Com efeito o percurso escolar dos alunos pertencentes a minorias étnicas é em geral mais difícil e desvantajoso do que o percurso escolar dos alunos pertencentes à cultura dominante. Os conhecimentos, as competências, os valores e atitudes mais valorizados pelo mercado de trabalho são as características da sua cultura, ou seja, os que a escola mais privilegia. Os outros alunos pertencentes às minorias é exigido que sejam bilingues e biculturais para que possam participar nas actividades escolares e tenham direito ao sucesso educativo. Desta forma os alunos não pertencentes ao grupo cultural dominante estão em desvantagem e as suas expectativas e motivação académicas tendem a ser baixas. Também a expectativa dos professores em relação ao sucesso destes alunos tendem a ser baixas, com efeitos negativos nas expectativas, na auto-imagem, nas motivações e consequentemente, na integração e no sucesso escolares desses alunos.

Quais as verdadeiras barreiras ao sucesso?

Prevalece ainda no senso comum a ideia que as capacidades intelectuais dos indivíduos variam em função da raça a que pertencem.
A importância do contexto familiar para o sucesso escolar. As características e o funcionamento da família variam em função dos contextos culturais e socioeconómicos. Algumas pessoas consideram como desviantes certas situações no seio de famílias pertencentes a minorias étnicas, quando na verdade são traços culturais da própria cultura. Os professores desta forma subestimam as capacidades dessas crianças.
As desvantagens socioeconómicas afectam particularmente as famílias pertencentes a minorias étnicas e, em consequência as aprendizagens escolares. O facto de o professor enfatizar as desvantagens sociais daquelas crianças pode levá-lo a atitudes de desistência ou de demissão do seu dever profissional de proporcionar a todos os alunos condições para o sucesso educativo.
A dificuldade no domínio da língua, na escola, é um factor de insucesso. Tem sido dada pouca importância aos problemas de aprendizagem e outros efeitos marginais (na auto-estima, na auto-confiança, etc) decorrentes das dificuldades linguísticas que se levantam às crianças africanas que falam o crioulo, por exemplo.
Os factores relacionados com as estruturas e processos escolares. A insuficiência e inadequação dos materiais, a organização de tempo e espaço, formas de planificação, ausência de mecanismos adequados de apoios e complementos educativos etc, são causas do insucesso. A organização e projecto global da escola devem considerar em todos os seus domínios de acção a sua natureza multiétnica. O investimento de um ou alguns professores no sentido de práticas de educação multicultural tende a perder-se quando a escola como um todo não está organizada em função da diversidade da população.
As expectativas dos professores em relação à progressão dos alunos têm muita influência na aprendizagem. Os professores tendem a conceber perfis de bons alunos. Quanto mais distante estiver dessas referências, menor serão as expectativas do professor em relação às suas aprendizagens, menor será o esforço e dedicação do professor em favor do aluno, afectando a sua auto-estima, auto-confiança e portanto a sua motivação.
É necessário tomar iniciativas adequadas e realistas tendo em vista facilitar a integração daqueles alunos através de:
- apoios suficientes em recursos humanos, materiais e financeiros às escolas;
- currículos desafiadores de práticas de educação para a igualdade; - apoio à formação do professor para desenvolverem práticas de educação para a igualdade.

No entanto, acredito que todas as pessoas, sendo assim como são - distintas - são especiais e interessantes na sua maneira de ser. Devemos valorizá-las e temos que aprender a conviver com as diferenças. E é essa mensagem que a escola tem de trazer aos seus educandos a respeito deste fenómeno de nosso mundo globalizado.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS EXISTE? EXISTE.


A violência na escola existe e não tem apenas a ver com alunos, ou com professores, ou com escolas, ou com estratos sociais.
Isto tem a ver com algo muito profundo e aterrador que é a “espécie de geração” que estamos a criar.
No meu tempo, éramos educados por pessoas. Hoje, os nossos jovens são educados por ecrãs (televisão e computador). E os ecrãs não são humanos…
Talvez por isso as nossas crianças cresçam sem emoções, muito vazias por dentro, sem um olhar “humano” para quem as rodeiam.
São também criadas na ilusão de que tudo lhes é permitido, vivendo numa impunidade e irresponsabilidade atroz. Julgam (ou pior, têm a certeza) que a vida é uma longa avenida de prazer, sem regras, sem leis, e que nada, absolutamente nada, dá trabalho.
Nós, pais e professores vamos deixando que isto aconteça, ou por incompetência de uns, ou por impossibilidade de outros.
Hoje é frequente que um jovem agredida um professor, ou empurre um velhinho no autocarro, ou insulte um funcionário da escola… e muitas outras coisas igualmente verdadeiras e inadmissíveis que se passam todos os dias.
A escola, hoje, serve para tudo menos para estudar.
A casa, hoje, serve para tudo menos para dar (as mínimas) noções de comportamento e boa educação.
E eles vão continuar a viver, desumanizados, diante dos ecrãs…
E nós? Vamos continuar a deixar?...

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Educação para a Criatividade


"Precisamos levar a arte que hoje está circunscrita a um mundo socialmente limitado a se expandir, tornando-se património da maioria e elevando o nível de qualidade de vida da população."
Ana Mae Barbosa (1991: 6)

Cada vez menos a escola se preocupa em preparar os alunos para escolher um bom filme, um bom livro, viver bem com os amigos e as demais pessoas, gerir uma família, ser um bom cidadão, isto porque, o modelo a seguir é o do trabalho, ao qual estamos presos, pensando, erradamente, que só será feliz aquele que trabalhar bem. É este paradoxo que vem destruindo de certa forma a família e as boas relações de amizade entre as pessoas.
Defendo a educação das crianças para uma sociedade da criatividade.
E o que é criatividade?
A criatividade é uma qualidade própria da pessoa humana, se entendermos que a pessoa é o lugar do criativo. Um dos grandes entraves para mudarmos esta situação, através da escola é a burocracia. Criatividade e burocracia são duas coisas incompatíveis. Sendo a escola o primeiro espaço formal onde se dá o desenvolvimento de cidadãos, nada melhor que por aí se dê o contacto sistematizado com o universo artístico e suas linguagens: artes visuais, teatro, dança, música e literatura. Contudo, o que se percebe é que o ensino da arte está relegado ao segundo plano, ou é encarado como mera actividade de lazer e recreação.
É uma pena!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

O POEMA DA "MENTE"






Há um primeiro-ministro que mente,

Mente de corpo e alma, completa/mente.

E mente de maneira tão pungente,

Que a gente acha que ele, mente sincera/mente,

Mas que mente, sobretudo, impune/mente...

Indecente/mente.

E mente tão nacional/mente,

Que acha que mentindo história afora,

Nos vai enganar eterna/mente.

sábado, 13 de novembro de 2010

A indisciplina nas Escolas (Vista por F. Savater)


O aumento da violência nas escolas reflecte a crise da autoridade familiar.
Especialistas em educação defendem que o aumento da violência escolar deve-se, em parte, a uma crise de autoridade familiar, pelo facto de os pais renunciarem a impor disciplina aos filhos, remetendo essa responsabilidade para os professores.
Os participantes no encontro “Família e Escola: um espaço de convivência”, dedicado a analisar a importância da família como agente educativo, consideram que é necessário evitar que todo o peso da autoridade sobre os menores recaia nas escolas.
“As crianças não encontram em casa a figura de autoridade”, que é um elemento fundamental para o seu crescimento, diz o filósofo Fernando Savater.
“As famílias não são o que eram antes e hoje o único meio com que muitas crianças contactam é a televisão, que está sempre em casa”, sublinha.
Para Savater, os pais continuam “a não querer assumir qualquer autoridade”, preferindo que o pouco tempo que passam com os filhos “seja alegre” e sem conflitos e empurrando o papel de disciplinador quase exclusivamente para os professores.
No entanto, e quando os professores tentam exercer esse papel disciplinador, “são os próprios pais e mães que não exerceram essa autoridade sobre os filhos que tentam exercê-la sobre os professores, confrontando-os”, acusa.
“O abandono da sua responsabilidade retira aos pais a possibilidade de protestar e exigir depois. Quem não começa por tentar defender a harmonia no seu ambiente, não tem razão para depois se ir queixar”, sublinha. Há professores que são “vítimas nas mãos dos alunos”.
Savater acusa igualmente as famílias de pensarem que “ao pagar uma escola” deixa de ser necessário impor responsabilidade, alertando para a situação de muitos professores que estão “psicologicamente esgotados” e que se transformam “em autênticas vítimas nas mãos dos alunos”.
A liberdade, afirma, “exige uma componente de disciplina” que obriga a que os docentes não estejam desamparados e sem apoio, nomeadamente das famílias e da sociedade.
“A boa educação é cara, mas a má educação é muito mais cara”, afirma, recomendando aos pais que transmitam aos seus filhos a importância da escola e a importância que é receber uma educação, “uma oportunidade e um privilégio”.
“Em algum momento das suas vidas, as crianças vão confrontar-se com a disciplina”, frisa Fernando Savater.
O filósofo explica que é essencial perceber que as crianças não são hoje mais violentas ou mais indisciplinadas do que antes; o problema é que “têm menos respeito pela autoridade dos mais velhos”.
“Deixaram de ver os adultos como fontes de experiência e de ensinamento para os passarem a ver como uma fonte de incómodo. Isso leva-os à rebeldia”, afirma.
Daí que, mais do que reformas dos códigos legislativos ou das normas em vigor, é essencial envolver toda a sociedade, admitindo Savater que “mais vale dar uma palmada, no momento certo” do que permitir as situações que depois se criam.
Como alternativa à palmada, o filósofo recomenda a supressão de privilégios e o alargamento dos deveres.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

VIDA





Quem sou eu para ficar triste?
Vejam a minha família e a minha fortuna,
Vejam os meus amigos e a minha casa.
Quem sou eu para me sentir sem vida?
Quem sou eu para me sentir esgotada?
Vejam a minha saúde e o meu dinheiro.
Para onde vou para me sentir bem?
Porque ainda procuro fora de mim?
Vejo claramente que isso não vai funcionar.
Enquanto no resto do mundo…
É virtude minha continuar quando não sou capaz?
É trabalho meu ser extraordinariamente altruísta?
A minha generosidade foi desabilitada por isso.
A ideia de que a minha tarefa é oferecer.
Porque me sinto tão ingrata?
Eu que estou muito além de apenas sobreviver.
Eu que vejo a vida como uma ostra.
É justo ser tão diferente?
Como ouso descansar na minha glória?
Como ouso ignorar uma mão estendida?
Como ouso ignorar um país do terceiro mundo?
Quem sou eu para ficar triste?
(Allanis Morissette – Vida)
Ainda acham a vossa vida assim tão má?

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sobre os Professores... alguém com lucidez.


"A contínua hostilização aos professores feita por este, e outros governos, vai acabar por levar cada vez mais pais a recorrer ao privado, mais caro e nem sempre tão bem equipado, mas com uma estabilidade garantida ao nível da conflitualidade laboral. O problema é que esta tendência neo-liberal escamoteada da privatização do bem público, leva a uma abdicação por parte do estado do seu papel moderador entre, precisamente, essa conflitualidade laboral latente, transversal à actividade humana, a desmotivação de uma classe fundamental na construção de princípios e valores, e a formação pura e dura, desafectada de interesses particulares, de gerações articuladas no equilíbrio entre o saber e o ter. O trabalho dos professores, desde há muito, vem sendo desacreditado pelas sucessivas tutelas, numa incompreensível espiral de má gestão que levará um dia a que os docentes sejam apenas administradores de horários e reprodutores de programas impostos cegamente. (…) O que eu gostaria de dizer é que o meu avô, pai do meu pai, era um modesto, mas, segundo rezam as histórias que cruzam gerações, muito bom professor e, sobretudo, um ser humano dotado de rara paciência e bonomia. Leccionava na província, nos anos 30 e 40, tarefa que não deveria ser fácil à altura: Salazar nunca considerou a educação uma prioridade e, muito menos, uma mais-valia, fora dos eixo Estoril-Lisboa, pelo que, para pessoas como o meu avô, dar aulas deveria ser algo entre o místico e o militante. Pois nessa altura, em que os poucos alunos caminhavam uma, duas horas, descalços, chovesse ou nevasse, para assistir às aulas na vila mais próxima, em que o material escolar era uma lousa e uma pedaço de giz eternamente gasto, o meu avô retirava-se com toda a turma para o monte onde, entre o tojo e rosmaninho, lhes ensinava a posição dos astros, o movimento da terra, a forma variada das folhas, flores e árvores, a sagacidade da raposa ou a rapidez do lagarto. Tudo isto entrecortado por Camões, Eça e Aquilino. Hoje, chamaríamos a isto ‘aula de campo’. E se as houvesse ainda, não sei a que alínea na avaliação docente corresponderia esta inusitada actividade. O meu avô nunca foi avaliado como deveria. Senão deveria pertencer ao escalão 18 da função pública, o máximo, claro, como aquele senhor Armando Vara que se reformou da CGD e não consta que tivesse tido anos de ‘trabalho de campo’. E o problema é que esta falta de seriedade do estado-novo no reconhecimento daqueles que sustentaram Portugal, é uma história que se repete interminavelmente até que alguém ponha cobro nas urnas a tais abusos de autoridade. Perante José Sócrates somos todos um número: as polícias as multas que passam, os magistrados os processos que aviam, os professores as notas que dão e os alunos que passam. Os critérios de qualidade foram ultrapassados pelas estatísticas que interessa exibir em missas onde o primeiro-ministro debita e o poviléu absorve". (…)
Pedro Abrunhosa